Pesquisa revela que a fome avança no Brasil e atinge 33,1 milhões de pessoas

Divulgado na quarta-feira (8), o 2º VIGISAN – Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil revela que a quantidade de pessoas em situação de insegurança alimentar grave, ou seja, passando fome, praticamente dobrou em menos de dois anos.

Esse contexto afeta diretamente 33,1 milhões de brasileiros, o equivalente a 15,5% da população, 14 milhões a mais de pessoas passando fome na comparação com o primeiro levantamento realizado em 2020.

Para o nutricionista e presidente do Conselho Federal de Nutricionistas (CFN), Élido Bonomo, os dados apontam para um cenário de retrocesso. “Atingimos um nível muito próximo do observado na década de 1990. Vimos cenas horripilantes, como a ‘fila dos ossos’, algo inaceitável para um país como o Brasil, que já foi referência no combate à fome. Devemos voltar nossa atenção para o fortalecimento das políticas públicas, com ações efetivas que garantam a segurança alimentar e nutricional da população”, destacou.

O presidente do CFN reforça que, desde 2010, o Direito Humano à Alimentação Adequada está previsto na Constituição Federal, fruto da luta e articulação dos movimentos, redes e coletivos da sociedade civil organizada. “Precisamos unir todos os movimentos da sociedade civil em ações conjuntas. Neste sentido, os dados apresentados pela pesquisa são elementos que devem ser atentamente analisados. Servem como contribuição para quais ações e políticas precisamos executar”, declarou Élido.

O levantamento foi realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) entre novembro de 2021 e abril de 2022, passando por 12.745 domicílios de 577 municípios nos 26 estados e no Distrito Federal.

Piora do cenário

A pandemia de Covid-19 e a crise econômica são fatos associados diretamente ao avanço da fome observado nos últimos dois anos. O I VIGISAN, divulgado em abril de 2021, apontava 19 milhões de brasileiros passando fome. Também deve ser levado em consideração, o esvaziamento de políticas públicas, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Maiores impactados

Na distribuição geográfica da fome, o Norte e o Nordeste são as regiões mais impactadas (71,6% e 68% respectivamente). São indicadores maiores que a média nacional (58,7%), sendo realidade diária para 25,7% das famílias no Norte e 21% no Nordeste.

O campo também enfrenta a fome. Nas áreas rurais, a insegurança alimentar, em todos os níveis, atinge 60% das residências. Desse total, 18,6% das famílias vivem com insegurança alimentar grave. A fome atingiu 21,8% dos domicílios de agricultores familiares e pequenos produtores.

A fome também afeta diretamente 65% dos lares chefiados por pessoas pretas ou pardas, que convivem com restrição de alimentos. Na comparação com o I VIGISAN, de 2020, a fome passou de 10,4% para 18,1% nas casas comandadas por pretos ou pardos. O gênero também é um fator que contribui para este cenário. Nos lares chefiados por mulheres, a fome saltou de 11,2% para 19,3%.

Insegurança alimentar

Segundo a pesquisa, 125,2 milhões de pessoas convivem com algum grau de insegurança alimentar, algo que corresponde a 58,7% da população brasileira. Comparando com 2020, houve aumento de 7,2% e na análise com 2018, o avanço alcança 60%.

A insegurança alimentar é classificada em três níveis: leve, moderada e grave.

Leve – quando a família possui preocupação ou incerteza sobre o acesso aos alimentos no futuro, com qualidade inadequada, resultado de estratégias que visam não comprometer a quantidade de alimentos. Já atinge 28% da população.

Moderada – quando existe redução quantitativa de alimentos entre adultos ou mudança nos padrões alimentares por falta de alimentos. Já atinge 15,2% dos brasileiros.

Grave – quando existe redução quantitativa dos alimentos entre as crianças, com mudanças nos padrões alimentares por conta da falta de alimentos. Nesse contexto, a fome passa a ser uma realidade dentro do lar. Esse cenário já atinge 15,5% da população.

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