O Nutricionismo e o conflito com o Comportamento Alimentar

Como já abordamos algumas vezes aqui no Blog, a área do Comportamento Alimentar é uma das que mais cresce dentro da Nutrição no Brasil.

Esse crescimento se expressa de diversas formas, inclusive pela produção acadêmica de pesquisa e de outros conteúdos sobre o tema.

Assim, essse aprofundamento do assunto também acaba refletindo no posterior aumento do interesse do público na busca por esse método de atendimento, o que já observamos nos últimos anos no Brasil.

Por isso, nosso post de hoje é sobre um conceito que de certa forma se relaciona de forma conflitiva com o Comportamento Alimentar, que é o Nutricionismo.

Além de ampliar este entendimento, também vamos falar um pouco mais sobre o Comportamento Alimentar e sua prática clínica, além de comentar sobre especializações na área.

Pronto para ver o post completo?

Então é só conferir abaixo!

 

Sumário

O Comportamento Alimentar e sua prática

Nutricionismo

Consequências negativas do Nutricionismo

Nutricionismo e o Comportamento Alimentar

Especialização em Comportamento Alimentar

Cursos Rápidos iPGS


O Comportamento Alimentar e sua prática

Como comentamos anteriormente, muito vem se pesquisando recentemente sobre a relação da nossa mente com a nossa alimentação.

De um tempo para cá, a pesquisa dos aspectos intuitivos do comportamento humano que influenciam na escolha pela alimentação passou a chamar mais a atenção da comunidade acadêmica, do mercado profissional e do público.

A área central de estudo do Comportamento Alimentar é justamente focada na relação entre os fatores emocionais e nossas escolhas por alimentos. Assim, amplia muito as possibilidades de contato entre profissional e paciente.

Quando não apenas questionamos o que o paciente está comendo, mas sim porque ele está fazendo esta escolha, e porque ele repete determinados comportamentos, sem um julgamento negativo, estamos no caminho certo para efetivamente resolver seu problema.

Desta forma, o profissional que se especializa em Comportamento Alimentar aprende a identificar esses possíveis desequilíbrios emocionais que acabam levando a desequilíbrios nutricionais.

Com uma abordagem especial, que implica uma relação de real confiança durante o atendimento, o profissional é capaz de naturalmente conduzir uma transformação no paciente para adquirir hábitos saudáveis.

Por sua abordagem diferenciada, que eleva e amplia o papel do nutricionista, ou do psicólogo, o atendimento em Comportamento Alimentar vem sendo cada vez mais procurado no Brasil.

Do mesmo modo, cresce também a demanda no mercado de trabalho por profissionais que sejam especializados no tema.

O Comportamento Alimentar prega uma mudnça no entendimento da relação entre a mente e as emoções humanas com a alimentação, e também na forma de contato entre profissional e paciente. Por isso, esta filosofia transforma tanto a vida de quem atende quanto de quem é atendido através deste método.

De acordo com o nutricionista Roberto Filho, "Apenas fazer cardápios pensando em nutrientes e não em toda a questão comportamental (ambiente, cultura, meio social, etc) é um erro gravíssimo, visto que um dos nossos maiores desafios (se não o maior) é o engajamento do paciente ao plano alimentar. Com os conhecimentos de nutrição comportamental e o atendimento humanizado, fica claro perceber que os pacientes sentem muito mais motivação de seguir seu planejamento alimentar quando este leva em consideração suas características sociais, aumentando a adesão e as chances de atingirem as metas terapêuticas".

Nutricionismo

O Nutricionismo é um termo cunhado pelo pesquisador australiano Gyogy Scrinis*. Sua etimologia traz a junção das palavras nutrição e reducionismo.

O intuito do conceito é definir a abordagem que resume a alimentação apenas aos nutrientes, seja a sua presença, seja a sua ausência, englobando também os seus potenciais malefícios ou benefícios em nossa saúde, além de alertar sobre o movimento de restringir a ciência da nutrição a fatores biológicos, ignorando todas as outras dimensões do comer.

Existe uma lição que sempre gostamos de enfatizar dentro do nosso programa de pós-graduação em Comportamento Alimentar: comer é um ato biopsicosociocultural, ou seja, é influenciado e composto por várias dimensões de nossa vida.

A abordagem reducionista do “Nutricionismo” leva profissionais e pacientes a ignorarem aspectos como o meio ambiente, prazer, cultura, acesso, emoções, memórias afetivas, economia, entre outros tantos que influenciam diretamente neste processo.

Além disso, esse conceito também pode fazer com que as pessoas possam passar a desenvolver até um certo medo de comida, de coisas básicas do dia-a-dia.

Essa ideia pode até acabar fomentando o terrorismo nutricional, e distorcendo o conceito de alimentação saudável com conceitos sem evidência.

Alguns perigos e clichês equivocados simplistas que podem decorrer dessa ideia são os seguintes:

• O pão passa a ser visto como carboidrato e engorda;
• O açúcar é veneno;
• A uva é frutose e causa cirrose;
• A carne é proteína e emagrece;
• O abacate é gordura boa, mas calórico;
• A cenoura é betacaroteno, mas é rica em carboidratos;

 

Consequências negativas do Nutricionismo

Esta desconexão entre as pessoas e os alimentos que encontramos hoje, diferentemente do que possa ter sido a intenção, não nos trouxe benefícios. Pelo contrário, o que percebemos é o aumento desenfreado do excesso do peso populacional.

Isso ocorre no mundo todo, e em todas as classes sociais, idades e gêneros, assim como também o crescimento das taxas de incidência das doenças crônicas não transmissíveis.

O Nutricionismo apresenta outras consequências negativas na sociedade. Fica fácil observar como também contribui para o aumento pela busca de dietas restritivas, impondo limites tanto em calorias quanto determinados nutrientes.

Comida e comer, a partir de um determinado ponto de nossa história, e para um setor significativo do público, passou a ter o papel exclusivo de prevenir doenças ou de promover magreza. Assim, abriu espaço para a indústria do emagrecimento e a cultura da dieta ofertarem o que supostamente seria “seguro” comer.

Esse tipo de mensagem, muitas vezes ainda repassada, nos faz focar no consumo de alimentos ultraprocessados, isentos de determinados nutrientes e ricos em outros, que na verdade podem ser piores para o meio ambiente e para a saúde.

Um claro exemplo disso é o caso da margarina, descrito detalhadamente no livro Nutricionismo – A ciência e a política do aconselhamento nutricional*. Na publicação, se aponta que “o mundo” passou a acreditar nos “males” das gorduras saturadas e nos benefícios das gorduras poli-insaturadas, desconsiderando qualquer preocupação com a qualidade e nível de processamento do produto.

Assim, passamos a consumir uma pasta ultra processada, em um processo que produz grande quantidade de ácidos graxos trans, estes sim sabidamente prejudiciais.

 

Nutricionismo e o Comportamento Alimentar

Como observado até aqui, o conceito do Nutricionismo condiz a uma ideia reducionista e restritiva da Nutrição. Portanto, o estudo do Comportamento Alimentar vai muito ao encontro deste conceito.

O Comportamento Alimentar tem vários objetivos. Entre outros objetivos, se concentra em resgatar nossa alimentação para algo que o Nutricionismo transtornou em complexo e limitado a um único aspecto, comer da forma como evoluímos durante séculos e que estava minimamente preservado até pouco tempo atrás.

Devemos incentivar cada vez mais as recomendações em comida de verdade, in-natura ou minimamente processada, sem a necessidade de intervenções da indústria de alimentos.

Muitas vezes o público é incentivado, com uma intensa propaganda de publicidade e marketing, a comer mais alimentos ultraprocessados, na tentativa de agregar a estes produtos uma falsa imagem de promover saúde e bem-estar.

Além disso, o Comportamento Alimentar também é contrário a dietas simplesmente restritivas, pelos efeitos psicológicos que esse tipo de pressão pode gerar ao paciente. 

 

Especialização em Comportamento Alimentar

Como anteriormente mencionado, a nossa instituição possui um curso de pós-graduação inteiramente dedicado ao Comportamento Alimentar, com vários motivos para você conhecer.

A nossa especialização em Comportamento Alimentar proporciona ao aluno o conhecimento adequado e necessário para instrumentalizar nutricionistas e demais profissionais para realizar uma mudança efetiva e natural no comportamento alimentar dos pacientes.

A abordagem do programa é fundamentada em estratégias contemporâneas de aconselhamento nutricional; entrevista motivacional; técnicas de terapia cognitivo-comportamental; técnicas do comer intuitivo e do comer consciente e muito mais, que possibilitam ao profissional conduzir no paciente o desenvolvimento de um saudável comportamento alimentar durante as consultas.

 

Entre as disciplinas estudadas no curso, estão: Fundamentos do Comportamento Alimentar, Psicologia Aplicada ao Comportamento Alimentar, Aconselhamento Nutricional nos Ciclos da Vida, Transtornos do Comportamento Alimentar, e o Tratamento do Comportamento Alimentar em Doenças Crônicas.

Por estar gerando cada vez mais interesse no público, o Comportamento Alimentar é uma especialidade com uma demanda crescente de profissionais no mercado.

Se você pensa em fazer uma especialização para alavancar a sua carreira ainda mais, e deseja também agregar qualidade de atendimento e conhecimento científico, em um segmento da Nutrição que segue em expansão, o Comportamento Alimentar é uma excelente possibilidade.

 

Cursos Rápidos iPGS

Além do curso de especialização, o nosso instituto também oferece diversos cursos rápidos de atualização profissional que abordam o Comportamento Alimentar.

Alguns exemplos são Comportamento Alimentar na Prática e Comportamento Alimentar na Infância e Adolescência, por exemplo.

Os cursos rápidos da Faculdade iPGS são cursos mais dinâmicos e céleres. Geralmente focados em um assunto mais específico, podem servir tanto como uma introdução inicial a um estudo mais profundo ou mesmo uma determinada atualização profissional.

Obrigado pela leitura, até o próximo post!

 

Organização: Rafael Marques Soares - Coordenador da Pós-graduação em Comportamento Alimentar - IPGS
*Autor: Gyorgy Scrinis
Tradução: Juliana Leite Arantes
Prefácios: Inês Rugani Ribeiro de Castro e Paula Johns
Parceria: O Joio e O Trigo
Apoio: ACT Promoção da Saúde
Lançamento: abril de 2021
Páginas: 468
ISBN: 9786587235448