O IMC na prática clínica - Incorreto, ultrapassado e preconceituoso

Você já ouviu muito falar em IMC, certo? Mas você já refletiu sobre esse conceito?

É justamente isso que propõe o coordenador da nossa Especialização em Comportamento Alimentar, Rafael Marques Soares, no post de hoje de blog.

Confira o texto completo abaixo!

 

Sumário

Origem do IMC

Problemas do IMC

Conclusões sobre o debate

Aprofunde o seu estudo

Referências

 

Origem do IMC

Você sabe como o cálculo do Índice de Massa Corporal – (IMC = Peso/Estatura(m)2) foi criado?

Pois bem, o senhor Lambert Adolph Jacque Quetelet era um astrônomo e estatístico belga que introduziu o conceito de "médias sociais".

Ao desenvolver o conceito de "média social", seu objetivo era determinar as características de um "homem médio", e a distribuição de várias características humanas em torno do "homem médio".

No geral, era seu desejo obter uma distribuição tal que formasse uma curva em forma de sino, ou seja, uma distribuição gaussiana ou normal. Ele se referiu a seus estudos como "física social", e criou o Índice de Quetelet em 1835.

Mas só na década de 70 do século passado que o Índice de Quetelet se popularizou como IMC nos estudos de Ancel Keys, onde eles se referiram a isso como índice de massa corporal (IMC).

Assim, Índice de Quetelet = peso corporal (quilogramas) dividido pela altura ao quadrado (metros) = IMC.

Embora Quetelet tenha notado que era uma ferramenta em nível de população e não deveria ser usada em indivíduos, o fisiologista Ancel Keys reintroduziu o cálculo em 1972 como o Índice de Massa Corporal, e desde então foi adotado pela comunidade médica como uma forma de medir a saúde de indivíduos.

Um IMC fora da faixa “normal” (18,5-25) é considerado menos saudável e um indicador de maiores riscos à saúde.

De lá para cá, mesmo com todos os questionamentos e evidências da necessidade de deixarmos o IMC para as pesquisas populacionais, ele segue sendo amplamente utilizado para medir “saúde” nas mais diversas práticas clínicas.

 

Problemas do IMC

Quais são os problemas com esse índice?

Do ponto de vista socioantropológico, é uma medida racista e sexista, desenvolvida em estudos que consideraram somente homens brancos, o que por sua vez faz com que a forma como o IMC está sendo usado não seja científica por causa de suas origens e da população homogênea a partir da qual foi criado.

Além disso, os pontos de corte são arbitrários. O National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos classificou como excesso de peso, na população americana, pessoas com IMC de 27,8 (homens) e 27,3 (mulheres) ou mais.

Se estivessem abaixo desse IMC, eram considerados "normais". Isso foi baseado em um ponto de corte de 85% das pessoas examinadas no National Health and Nutrition Examination Study (NHANES) ajustando para idade, gênero e etnia.

Para que houvesse uma globalização indevida das categorias em 1998, o ponto de corte entre normal e sobrepeso foi reduzido para um IMC de 25, para alinhá-lo com as 4 categorias das diretrizes da OMS.

Isso instantaneamente converteu milhões de americanos de “peso normal” em “excesso de peso”, e converteu milhões de americanos de “peso normal” para “excesso de peso”.

Em 1997, a International Obesity Task Force expandiu o número de categorias de IMC para incluir diferentes graus de obesidade e mudou a terminologia. Um IMC de 25 a 29,9 é referido como “pré-obesidade”, um IMC de 30 a 34,9 é obesidade classe I, 34,9 a 39,9 é obesidade classe II e um IMC de 40 ou mais é obesidade classe III ou severa (sim, não se usa mórbida desde 1998).

Determinar obesidade só pelo IMC é totalmente incorreto, já que não leva em conta a composição corporal, pois não é uma medida direta do percentual de massa gorda, e não diferencia entre a massa magra corporal e a massa gorda corporal; ou seja, uma pessoa pode ter um IMC alto, mas ainda assim ter uma massa gorda muito baixa e vice-versa.

Do ponto de vista anatômico e metabólico, o termo obesidade deve se referir a um acúmulo excessivo de gordura corporal (triacilgliceróis), e, com base nisso, a precisão do IMC como determinante da massa gorda corporal tem sido questionada repetidamente.

Uma limitação adicional do IMC é que ele não captura informações de localização de gordura corporal.

Esta é uma variável importante na avaliação das consequências metabólicas, e também na mortalidade do acúmulo excessivo de gordura.

Sabemos que o acúmulo de gordura na parte superior do corpo, mais especificamente, o acúmulo de gordura visceral, em comparação com a parte inferior do corpo é associado a um risco aumentado de doença coronariana, diabetes e cálculos biliares e gota.

Contudo, indivíduos que acumularam gordura excessiva no segmento inferior do corpo são relativamente poupados dessas complicações.

Mesmo assim, é problemático relacionar o IMC com questões de saúde/doença. Com base nos dados da literatura, existem vários problemas adicionais na determinação de associações entre o IMC e a taxa de mortalidade geral ou, mais especificamente, eventos cardiovasculares ou taxas de mortalidade.

Muitas pessoas com obesidade não têm fatores de risco cardiovascular e, naquelas que têm, o IMC não se correlaciona mais com eventos cardiovasculares quando os efeitos adversos desses outros fatores são desconsiderados.
Outra questão é que o estado de tratamento dos fatores de risco cardiovascular mencionados anteriormente muitas vezes é desconhecido ou não declarado; ou seja, a eficácia do tratamento raramente é considerada.

 

Conclusões sobre o debate

Um exemplo do que falamos aqui é que os pesquisadores examinaram dados da Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição dos Estados Unidos e analisaram a ligação entre o IMC e uma gama de outros marcadores de saúde normais, como pressão arterial, açúcar no sangue e colesterol.

Eles descobriram que o IMC atribuía incorretamente a saúde das pessoas em ambas as extremidades da escala de peso.

Os pesquisadores observaram ainda que 54 milhões de americanos foram classificados como com sobrepeso ou obesos, mas com uma investigação mais aprofundada, eles descobriram que outras medidas cardiometabólicas (pressão arterial, açúcar no sangue, colesterol, etc.) mostraram que eles eram, na verdade, perfeitamente saudáveis.

Outros 21 milhões de pessoas foram classificadas como "normais" em termos de IMC, mas mais tarde foram determinadas como não saudáveis com base novamente nessas outras medidas cardiometabólicas.

Portanto, para concluir, fica a mensagem de que não podemos usar o peso e o IMC como marcadores de saúde, pois simplesmente não se correlacionam, exceto nos extremos.

O IMC não foi originalmente desenvolvido para uso específico como um índice de gordura em estudos populacionais. No entanto, foi cooptado para este uso porque é uma métrica facilmente obtida.

Deve-se entender que o IMC apresenta sérias limitações quando utilizado como indicador de saúde/doença, e precisamos levar em consideração todos os marcadores de saúde de uma pessoa ao determinar seu status saudável/doente.

Isso inclui fatores como história de vida, níveis de estresse, acesso a alimentos e hábitos dietéticos, saúde mental sedentarismo, tabagismos, quaisquer problemas ou condições de saúde subjacentes.

 

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Referências:

Nuttall FQ. Body Mass Index: Obesity, BMI, and Health: A Critical Review. Nutr Today. 2015;50(3):117-128. doi:10.1097/NT.0000000000000092.

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