Por que ficar falando da forma do corpo é ruim? Conheça o Fat Talk

Você já ouviu falar em Fat Talk?

É o termo designado para definir as conversas que têm como foco o formato do corpo das pessoas, e seu estado em comparação com os padrões de beleza estabelecidos de forma geral pela sociedade.

Hoje, o nosso post do blog aborda justamente esse tema. Vamos falar um pouco mais sobre esse conceito, de suas razões e também suas consequências práticas à saúde das pessoas.

Confira o texto completo abaixo!

 

Sumário

O famigerado Fat Talk

Por que isso acontece?

Consequências do Fat Talk

Como podemos mudar a cultura do Fat Talk?

Referências do texto

 

O famigerado Fat Talk

Você talvez nunca tenha ouvido falar, mas existe um termo científico para essa prática: FAT TALK, ou seja, “conversa sobre gordura”.

Esta é uma prática que acomete muitas pessoas, sejam elas gordas ou não.

Acredito que muitos já presenciaram alguém falando em voz alta sobre a necessidade de emagrecer (mesmo sendo uma pessoa magra), ou fazendo comentários depreciativos sobre algo que ela considera errado no seu corpo.

Além disso, muitas pessoas constantemente também ficam falando sobre dietas e comportamentos que ajudem a emagrecer.

 

Por que isso acontece?

Somos permanentemente inundados com imagens da mídia de mulheres e homens magros.

Esse é o padrão estético vigente, e com a nítida mensagem de que por serem assim, essas pessoas são bem-sucedidas.

Além disso, a magreza também está associada à atratividade, criando uma pressão para ser magro e um desejo de se adequar à suposta imagem corporal ideal.

Um número cada vez mais crescente de estudos vem mostrando que a conversa sobre gordura pode ter um impacto negativo no bem-estar físico e também psicológico.

Os resultados identificam que pessoas que costumam entrar em conversas sobre gordura ficam normalmente insatisfeitas com seus próprios números.

Isso aumenta a chance de que elas passem a praticar dietas extremas, representando uma ameaça à saúde.

 

Consequências do Fat Talk

Conversas sobre gordura podem facilmente levar a emoções negativas, e isso é problemático de vários modos.

O Fat Talk está intimamente associado à insatisfação corporal, que por sua vez está associada à alimentação transtornada.

A insatisfação corporal tem uma série de consequências negativas e resultados para a saúde pública.

Isso inclui baixa autoestima, aumento do comer emocional, desenvolvimento da obesidade e práticas não saudáveis de controle de peso, como exercícios excessivos, uso frequente de dietas da moda, transtornos alimentares, pular refeições ou outros métodos compensatórios.

Ainda, conversas sobre corpo, gordura e emagrecimento aparentemente inofensivas podem ter efeitos indesejados em familiares e amigos.

Portanto, o Fat Talk não promove comportamentos saudáveis em relação aos alimentos ou com nossos corpos, e sim ansiedade, pois a vergonha do corpo vai além da conversa sobre gordura.

Existe também uma vergonha de si mesmo, que não precisa de nenhuma influência ou participação social para existir.

Essa é a vergonha que acontece quando uma pessoa se critica na frente do espelho, ou constantemente verifica seu corpo.

A culpa alimentar e corporal também é generalizada e reforçada socialmente e pela mídia. Sentimo-nos culpados se comermos certas coisas, ou não nos exercitarmos com a frequência e tanto quanto 'deveríamos'.

Fazer julgamentos é uma área que cruza com o estigma de peso; julgamos as pessoas com base em seu tamanho e tiramos conclusões morais com base em seu peso, forma ou tamanho.

Todas essas áreas funcionam isoladamente, ou em uníssono, para criar uma tempestade perfeita de vergonha, tanto para nós quanto para os outros. Quanto mais o reconhecemos, mais facilmente podemos trabalhar para combatê-lo.

 

Como podemos mudar a cultura do Fat Talk?

Se você é um profissional de saúde pública, até mesmo seus pacientes ou clientes podem ser afetados com o Fat Talk.

O uso consistente de linguagem sugerindo que a autoestima está enraizada na forma ou no tamanho do corpo e normalizar a insatisfação corporal pode fazer com que outras pessoas adotem essa forma de pensar.

O foco deve ser nos comportamentos de saúde, não na aparência. As conversas sobre corpo, gordura e emagrecimento são a antítese da promoção de comportamentos saudáveis, e, portanto, devem ser abordadas na prática clínica dos profissionais para a sua prevenção.

A solução para essa situação pode aliar diversos fatores. Com atenção especial, desenvolvimento de autoconsciência, e muitas vezes terapia, quando necessário, é possível mudar a maneira como as pessoas reagem a esta situação.

É importante apontar os comportamentos não saudáveis que o Fat Talk promove, mas evitando responder com uma linguagem relacionada à aparência do corpo, como:

- "Não, você está ótima!"
- "Você já está tão magro!"
- "Você é tão bonita!"

Essas declarações podem reforçar a ideia de que a aparência é prioridade ou uma medida única de autoestima.

Em última análise, é importante lembrar que o Fat Talk promove a insatisfação com o corpo e comportamentos prejudiciais à saúde.

Concentre-se no autocuidado, como dormir o suficiente, beber bastante água, incorporar movimentos saudáveis e seguir uma dieta equilibrada.

Evite usar Fat Talk no cotidiano, e ajude seus amigos e conhecidos a reconhecer quando você observar este tipo de comportamento.

 

Referências do texto

Confira a lista completa abaixo:

Bulik, C.M. (2012). The woman in the mirror: how to stop confusing what you look like with who you are. 1st U.S. ed. New York: Walker & Co.

Tartakovsky, M. (2012). How To Spot ‘Fat Talk’ So You Can Stop It. Psych Central. Retrieved from https://blogs.psychcentral.com/weightless/2012/04/how-to-spot-fat-talk-so-you-can-stop-it/.

Mills, J., & Fuller-Tyszkiewicz, M. (2017). Fat talk and body image disturbance: A systematic review and meta-analysis. Psychology of Women Quarterly, 41(1), 114–129. https://doi.org/10.1177/0361684316675317.

L.E. Britton et al. (2006) Fat talk and self-presentation of body image: Is there a
social norm for women to self-degrade?/ Body Image 3 247–254.

M.D. Jones et al. (2014) A naturalistic study of fat talk and its behavioral and affectiveconsequences / Body Image 11 337–345.

A. Arroyo & J. Harwood Exploring the Causes and Consequences of Engaging in Fat Talk Journal of Applied Communication Research Vol. 40, No. 2, May 2012, pp. 167187.

Organização: Rafael Marques Soares - Coordenador da Pós-graduação em Comportamento Alimentar - IPGS