Transtornos alimentares na gestação e Comportamento Alimentar

A gravidez é um período de muitas transformações para a mulher, inclusive em seu Comportamento Alimentar.

Muitas vezes, essas mudanças podem acarretar no desenvolvimento de transtornos alimentares durante a gestação, ou mesmo a recaídas destes distúrbios.

Por ser um assunto de extrema importância, o nosso post do blog hoje é sobre esse tema, sendo especialmente organizado pelo professor Rafael Marques Soares, coordenador da especialização em Comportamento Alimentar da Faculdade iPGS.

Ao longo do texto, vamos falar sobre assuntos como pressão social durante a gravidez, transtornos alimentares na gestação e Comportamento Alimentar, e também dar dicas práticas a profissionais e gestantes.

Acompanhe o texto completo abaixo!

 

Sumário

Pressão social durante a gravidez

Comportamento Alimentar na Gestação

Transtornos alimentares na gravidez

Como profissionais devem lidar com transtornos alimentares na gestação

- Sinais

- Perguntas

Dicas às gestantes

Especialização em Comportamento Alimentar

Cursos Rápidos iPGS

Referências do Texto

 

Pressão social durante a gravidez

Compartilho inicialmente aqui o relato de uma paciente: “Fui contar para minha sogra que estava grávida. Depois de dizer parabéns, a segunda coisa que ela disse foi ‘cuidado para não engordar’. Não acreditava que ela estava falando aquilo, afinal, em toda minha vida de luta contra a balança, esta é a única vez que eu deveria ter permissão para engordar."

Sim, esta é a realidade de muitas mulheres que estão grávidas. Também este é um pensamento muito comum para aquelas que planejam engravidar: “agora a sociedade não vai mais opinar sobre meu corpo.”

Infelizmente, na prática também não é assim. Na sociedade gordofóbica em que vivemos, e perante as pressões e padrões estéticos amplamente divulgados nas redes sociais, um momento importante e sensível da vida das mulheres pode tornar-se um fardo.

Assim, a característica física principal de uma mulher grávida, a barriga, ganhou regras que atribuem formas e determinam valores estéticos que devem ser alcançados.

A condenação cultural da mulher ser gorda não desaparece nem mesmo quando a "gordura" não deve ser a principal preocupação.

O dimensionamento incessante dos corpos femininos estende os ideais de beleza distorcidos para este momento, e parece que não há limites quando se trata de como uma mulher deva se parecer.

 

Comportamento Alimentar na Gestação

Para agravar este processo, pouco se divulga que a gravidez pode ser um gatilho para um transtorno alimentar.

As mudanças que ocorrem durante a gravidez e o período pós-parto podem fazer com que as mulheres sintam que seus corpos estão fora de controle, proporcionando a aproximação com os transtornos do Comportamento Alimentar.

Uma gravidez sem percalços já exige fisicamente, psicologicamente e emocionalmente da gestante. Embora o ganho de peso seja necessário no desenvolvimento uma gravidez saudável, para quem tem transtornos alimentares, ter que ganhar peso pode ser muito assustador.

Muitos aspectos da gravidez podem ser desafiadores para qualquer mulher, como as diversas mudanças biológicas que ocorrem e o necessário ganho de peso.

Para uma mulher que está lutando contra um distúrbio alimentar ou dismorfia corporal, esses medos podem ser exacerbados a um nível totalmente novo, pois a batalha contra seu distúrbio alimentar é travada não apenas por sua própria vida, mas também pela vida de seu filho não nascido.

Distúrbios alimentares afetam cerca 1 a 2% das mulheres grávidas, chegando a 8% no transtorno da compulsão alimentar.

Para aquelas mulheres com histórico dessas doenças, há maior risco de recaída durante os períodos pré-natal e pós-parto.

Isso pode levar a comportamentos nocivos, como restringir alimentos, exercícios excessivos, compulsões e até comportamentos compensatórios, como vômito, por exemplo.

 

Transtornos alimentares na gravidez

Dessa forma, toda a pressão em comer bem durante a gravidez e ganhar a quantidade certa de peso enquanto é pesada e medida em consultas de pré-natal pode ser um gatilho para mulheres que têm relações desafiadoras com a alimentação e seus corpos.

Fotos no Instagram de mulheres ostentando “gominhos” quando estavam grávidas de seis meses, e exibindo “barrigas negativas” apenas semanas após o nascimento, também não ajudam.

Muitos dos fundamentos psicológicos dos transtornos alimentares estão relacionados ao controle e à imagem corporal negativa.

Durante a gravidez, o corpo está inevitavelmente mudando. Para alguém que já luta com dificuldades de imagem corporal, mesmo que tenha alcançado um peso saudável, a gravidez pode ser muito complicada psicologicamente.

Assim, este pode se tornar um período de vulnerabilidade para o início, persistência ou recaída dos sintomas do transtorno alimentar.

Importante ressaltar que não há uma relação direta e independente de causalidade entre a gestação e os transtornos alimentares, não há uma única causa para um distúrbio alimentar.

Fatores biológicos, comportamentais, psicológicos, sociais e ambientais podem desempenhar um papel. Grandes mudanças de vida e trauma também podem desempenhar um papel significativo.

Inclusive, para muitas pacientes, a gravidez é um momento que incentiva o autocuidado e motiva a priorização do tratamento para um transtorno alimentar.

Tomar as medidas necessárias para apoiar a recuperação do transtorno alimentar pode ajudar a lhe dar a melhor experiência possível, ao mesmo tempo em que apoia sua saúde e bem-estar em geral.

 

Como profissionais devem lidar com transtornos alimentares na gestação

Em geral, os transtornos alimentares são mais frequentemente encontrados em mulheres adolescentes e jovens adultas.

Assim, elas muitas vezes chegam ao atendimento de profissionais da Nutrição e da Saúde durante a gravidez.

A avaliação pode ser inicialmente difícil, porque pessoas com distúrbios alimentares tendem a ocultar seus padrões alimentares anormais e comportamentos compensatórios (jejum, abuso de laxante, abuso de diurético, purga ou exercício excessivo) devido à negação, vergonha e/ou culpa.

Os sintomas também podem ser difíceis de detectar, porque as mulheres podem parecer saudáveis. Como resultado, os transtornos alimentares muitas vezes passam despercebidos e não tratados durante a gravidez.

 

Sinais

Abaixo, alguns sinais de alerta de que as gestantes podem ter um distúrbio alimentar e que os profissionais devem atentar:

●Histórico de transtorno alimentar

●Vômitos não relacionados a Hiperêmese gravídica

●Falta de ganho de peso ao longo de duas consultas consecutivas de pré-natal no segundo trimestre

●Índice de massa corporal anormalmente baixo

●Hipercalemia inexplicável ou outras anormalidades eletrólitos devido ao uso de laxantes

●Problemas dentários indicativos de esmalte dentário ruim

●Presença de transtorno de humor ou ansiedade

 

Perguntas

Também existem algumas perguntas que todo o profissional de saúde pode utilizar para iniciar uma investigação sobre comportamentos alimentares inadequados de seus pacientes:

●Você está preocupado com sua forma ou peso?

●Como você se sente ao ser pesado em cada visita?

●Como você se sente sobre o seu ganho de peso durante a gravidez?

●Você se sente culpado por seus hábitos alimentares?

●Você come em segredo?

●Você sente que perdeu o controle sobre o quanto você come?

●Você tenta conscientemente restringir o que come, ou já vomitou para controlar seu peso?

●Você já abusou de laxantes ou diuréticos?

●Quais são seus hábitos de exercício?

 

Dicas às gestantes

Com conhecimento e entendimento da situação, as próprias pacientes também podem contribuir para um diagnóstico e tratamento mais adequado durante a sua gestação com algumas ações, quando possível:

• Seja aberta com seu profissional de saúde pré-natal sobre lutas passadas ou presentes com algum transtorno. Se a pessoa não é sensível à sua luta e preocupações, procure outro profissional que dê atenção ao seu relato.

• Consultas extras podem ser necessárias para acompanhar mais de perto o crescimento e o desenvolvimento do seu bebê.

• Consulte um nutricionista com experiência em transtornos alimentares antes ou imediatamente após engravidar. Trabalhe com o nutricionista durante toda a gestação para criar um plano de alimentação saudável e ganho de peso. Muitas vezes é útil continuar a vê-lo no pós-parto.

• Grupos individuais de aconselhamento e apoio durante e após a gravidez podem ajudá-la a lidar com suas preocupações e medos em relação à alimentação, ganho de peso, imagem corporal e o novo papel da maternidade.

• Permita que seu profissional de saúde pré-natal a pese. Essas informações são essenciais para acompanhar a saúde do seu bebê. Se você preferir não monitorar seu ganho de peso, pergunte ao seu médico sobre ficar de costas para a balança e instruí-los a não compartilhar o número com você.

• Converse com seu médico antes de participar de uma aula de exercícios pré-natal para ter certeza de que ele se encaixa com o seu plano de recuperação.

 

Especialização em Comportamento Alimentar

A Faculdade iPGS instituição possui um curso de especialização inteiramente dedicado ao Comportamento Alimentar, abordando com profundidade o assunto que debatemos aqui e muitos outros mais.

Por isso, há vários motivos para você conhecer mais sobre o curso.

A especialização em Comportamento Alimentar proporciona ao aluno o conhecimento adequado e necessário para instrumentalizar nutricionistas e demais profissionais para realizar uma mudança efetiva e natural no comportamento alimentar dos pacientes.

A abordagem do programa é fundamentada em estratégias contemporâneas de aconselhamento nutricional, entrevista motivacional, técnicas de terapia cognitivo-comportamental, técnicas do comer intuitivo e do comer consciente, que possibilitam ao profissional conduzir no paciente o desenvolvimento de um saudável comportamento alimentar durante as consultas.

Entre as disciplinas estudadas no curso, estão Fundamentos do Comportamento Alimentar, Psicologia Aplicada ao Comportamento Alimentar, Aconselhamento Nutricional nos Ciclos da Vida, Transtornos do Comportamento Alimentar, e o Tratamento do Comportamento Alimentar em Doenças Crônicas.

Por estar gerando cada vez mais interesse no público, o Comportamento Alimentar é uma especialidade com uma demanda crescente de profissionais no mercado.

Se você pensa em fazer uma especialização para alavancar a sua carreira ainda mais, e deseja também agregar qualidade de atendimento e conhecimento científico, em um segmento da Nutrição que segue em expansão, o Comportamento Alimentar é uma excelente possibilidade.

 

Cursos Rápidos iPGS

Além do curso de especialização, o nosso instituto também oferece diversos cursos rápidos de atualização profissional que abordam o Comportamento Alimentar.

Alguns exemplos são Comportamento Alimentar na Prática e Comportamento Alimentar na Infância e Adolescência, por exemplo.

Os cursos rápidos da Faculdade iPGS são cursos mais dinâmicos e céleres. Geralmente focados em um assunto mais específico, podem servir tanto como uma introdução inicial a um estudo mais profundo ou mesmo uma determinada atualização profissional.

Obrigado pela leitura, até o próximo post!

 

Referências do Texto

Confira a lista abaixo:

1. https://www.uptodate.com/contents/eating-disorders-in-pregnancy/contributors - Literature review current through: Jan 2020.

2. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition (DSM-5), American Psychiatric Association, Arlington 2013.

3. Franko DL, Spurrell EB. Detection and management of eating disorders during pregnancy. Obstet Gynecol 2000; 95:942.

4. Abraham S. Obstetricians and maternal body weight and eating disorders during pregnancy. J Psychosom Obstet Gynaecol 2001; 22:159.

5. Siega-Riz AM, Von Holle A, Haugen M, et al. Gestational weight gain of women with eating disorders in the Norwegian pregnancy cohort. Int J Eat Disord 2011; 44:428.

6. Bulik CM, Von Holle A, Hamer R, et al. Patterns of remission, continuation and incidence of broadly defined eating disorders during early pregnancy in the Norwegian Mother and Child Cohort Study (MoBa). Psychol Med 2007; 37:1109.

7. Micali N, Treasure J, Simonoff E. Eating disorders symptoms in pregnancy: a longitudinal study of women with recent and past eating disorders and obesity. J Psychosom Res 2007; 63:297.

8. Nguyen AN, de Barse LM, Tiemeier H, et al. Maternal history of eating disorders: Diet quality during pregnancy and infant feeding. Appetite 2017; 109:108.

Organização: Rafael Marques Soares - Coordenador da Pós-graduação em Comportamento Alimentar - IPGS