Comer Hedônico: ter prazer na alimentação é um problema?

Você já ouviu falar em “comer hedônico?”

No nosso post de hoje do blog você conhecerá tudo sobre esse assunto, e como ele se relaciona com hábitos saudáveis de alimentação.

Confira o texto completo a seguir!

 

Sumário

Conceito de comer hedônico

O apetite hedônico

Controlando o comer hedônico

Fome emocional e fome física

Aprofunde o seu conhecimento

Referências do texto

 

Conceito de comer hedônico

Durante milênios, nossa alimentação era comandada, prioritariamente, pelo impulso biológico e feroz de conseguir calorias para sobreviver.

Este ponto permanece até os dias de hoje. Quando queimamos mais calorias do que comemos, nosso corpo reage aumentando o apetite, ao mesmo tempo em que atrasa a mensagem de que você está satisfeito. Especificamente, ele libera mais hormônio da fome, grelina, e menos dos peptídeos que permitem ao intestino sinalizar para o cérebro parar de comer.

Em teoria, isso seria grande responsável pela quantidade de comida que ingerimos, mantendo um conceito bem estabelecido e conhecido, a homeostase.

Embora a homeostase seja muito controlada por uma conversa cruzada de hormônios entre o intestino e o cérebro, as pesquisas demonstram que as dietas de conveniência ocidentais exploraram um impulso diferente para comer, o sistema de recompensa do cérebro.

Chamamos isso de “comer hedônico”, em homenagem a Hedonê, a deusa grega do prazer.

 

O apetite hedônico

Assim, o apetite hedônico é alimentado principalmente pelos alimentos gordurosos, açucarados e artificialmente criados para serem mais palatáveis. Esses produtos se utilizam da nossa evolução para aumentar seu consumo/venda.

Evolutivamente, os primeiros humanos aprenderam rapidamente que alimentos naturalmente doces nunca eram venenosos e, portanto, seguros.

Naquela época, esses tipos de alimentos com alto teor de energia eram raros. Quando os primeiros humanos encontravam algumas dessas guloseimas, e estou falando de mel, cana ou frutas, o sistema de recompensa hedônico as encorajava a continuar comendo.

Afinal, não se sabia quando teria algo tão gostoso e energético para comer de novo, e isso evitou que muitos de nossos ancestrais morressem de inanição, devido ao estoque de energia e nutrientes.

Claro que isso fazia total sentido em uma evolução marcada pela escassez de comida. Contudo, com a chegada da indústria de ultraprocessados, este apetite hedônico pode se voltar contra nós, porque a sociedade moderna foi inundada por alimentos altamente processados e fáceis de se conseguir.

Os alimentos doces, em particular, inundam o cérebro com o sinal químico dopamina. Uma vez ativados, as pessoas podem procurá-los repetidamente pelo choque de prazer que eles trazem.

Afinal, o corpo não diferencia se estamos em plena modernidade industrial ou na idade da pedra, o que ele quer é garantir sua sobrevivência.

Só que diferentemente do passado, hoje não há nenhuma escassez, os alimentos estão por toda a parte.

Refrigerantes e sucos artificiais, cereais matinais, batatas fritas e pizzas congeladas se tornaram parte do dia-a-dia de muitas pessoas. Esses produtos são uma alquimia de açúcar, sal, gorduras, sabor artificial, cor e textura - uma receita industrial completa.

 

Controlando o comer hedônico

O problema que passamos como profissionais de saúde e mesmo como consumidores é que no momento, há pouco para ajudar as pessoas a saciar um poderoso impulso hedônico.

Muito tem se estudado e pesquisado para auxiliar as pessoas a “controlarem” seu comer hedônico perante tanta oferta. São as técnicas de comer consciente e intuitivo, associadas ao mindfull eating, menos estresse, melhora no sono e prática de atividade física.

Esses hábitos dão sinais de contribuição positiva neste processo, mas como bem sabe qualquer pessoa que já tentou quebrar um hábito prejudicial, cumprir essas promessas é mais fácil de falar do que fazer.

Outras técnicas, como o treinamento de controle inibitório, estão sendo tentadas. O treinamento de controle inibitório é baseado em algo chamado de modelo de autocontrole de processo duplo.

A ideia é que todos têm um lado impulsivo que cede a tentações recompensadoras, mas também temos um lado racional de nossos cérebros que pode parar esses impulsos para alinhar nosso comportamento com nossos objetivos.

Contudo, como já bem descrito aqui mesmo neste blog, somos seres biopsicosocioculturais, e para que tenhamos avanços em nosso estilo de vida para um local de saúde, sem que percamos o prazer, muito tem que ser feito, nas mais diversas esferas da sociedade. Não devemos deixar esta carga somente nos ombros dos indivíduos.

 

Fome Emocional e fome física

Existe a fome emocional e a fome física. A primeira representa nossa vontade de comer a partir de aspectos psicológicos e sociais. A segunda representa a nossa real necessidade biológica e fisiológica de alimentação.

Um modo de tentar identificar as características que diferenciam a fome emocional da física está neste quadro:

Outros pontos de identificação da fome emocional são questões que os profissionais de saúde podem fazer a seus pacientes em sua prática clínica:

• Você come mais quando está estressado?

• Você come quando não está com fome ou quando está satisfeito?

• Você come para se sentir melhor (para se acalmar, quando está triste, bravo, entediado, ansioso, etc.)?

• Você se recompensa frequentemente com comida?

• Você come além da sensação de já estar satisfeito?

• A comida faz você se sentir seguro? Você sente que a comida é uma amiga, companhia?

• Você se sente impotente ou fora de controle em relação à comida?

 

Aprofunde o seu conhecimento

A Faculdade iPGS possui um curso de especialização inteiramente dedicado ao estudo do Comportamento Alimentar.

Lá, abordamos com profundidade tudo de mais relevante ligado à fome emocional, além de muitos outros mais.

Por isso, há vários motivos para você conhecer mais sobre o curso:

A especialização em Comportamento Alimentar proporciona ao aluno o conhecimento adequado e necessário para instrumentalizar nutricionistas e demais profissionais para realizar uma mudança efetiva e natural no comportamento alimentar dos pacientes.

A abordagem do programa é fundamentada em estratégias contemporâneas de aconselhamento nutricional, entrevista motivacional, técnicas de terapia cognitivo-comportamental, técnicas do comer intuitivo e do comer consciente, que possibilitam ao profissional conduzir no paciente o desenvolvimento de um saudável comportamento alimentar durante as consultas.

Entre as disciplinas estudadas no curso, estão Fundamentos do Comportamento Alimentar, Psicologia Aplicada ao Comportamento Alimentar, Aconselhamento Nutricional nos Ciclos da Vida, Transtornos do Comportamento Alimentar, e o Tratamento do Comportamento Alimentar em Doenças Crônicas.

Por estar gerando cada vez mais interesse no público, o Comportamento Alimentar é uma especialidade com uma demanda crescente de profissionais no mercado.

Se você pensa em fazer uma especialização para alavancar a sua carreira ainda mais, e deseja também agregar qualidade de atendimento e conhecimento científico, em um segmento da Nutrição que segue em expansão, o Comportamento Alimentar é uma excelente possibilidade.

 

Referências do texto

- Saper CB, Chou TC, Elmquist JK. The need to feed: homeostatic and hedonic control of eating. Neuron. 2002 Oct 10;36(2):199-211. doi: 10.1016/s0896-6273(02)00969-8. PMID: 12383777.

- Finlayson e Lowe desenvolveram questionários que ajudam a colocar as pessoas em uma escala alimentar hedônica. Atualmente, eles são usados apenas para pesquisa, por isso é difícil para o público saber exatamente por que comem demais e se um forte impulso hedônico pode ser o culpado.

- Poulton AS, Hibbert EJ, Champion BL, Nanan RK. Stimulants for the Control of Hedonic Appetite. Front Pharmacol. 2016 Apr 25;7:105. doi: 10.3389/fphar.2016.00105. PMID: 27199749; PMCID: PMC4843092.

- Manasse SM, Espel HM, Forman EM, Ruocco AC, Juarascio AS, Butryn ML, Zhang F, Lowe MR. The independent and interacting effects of hedonic hunger and executive function on binge eating. Appetite. 2015 Jun;89:16-21. doi: 10.1016/j.appet.2015.01.013. Epub 2015 Jan 19. PMID: 25613129; PMCID: PMC4374008.

- Appelhans BM. Neurobehavioral inhibition of reward-driven feeding: implications for dieting and obesity. Obesity (Silver Spring). 2009 Apr;17(4):640-7. doi: 10.1038/oby.2008.638. Epub 2009 Jan 22. PMID: 19165160.

- BARBOSA, Marina Rodrigues; PENAFORTE, Fernanda Rodrigues de Oliveira; SILVA, Ana Flavia de Sousa. Mindfulness, mindful eating and intuitive eating in the approach to obesity and eating disorders. SMAD, Rev. Eletrônica Saúde Mental Álcool Drog. (Ed. port.), Ribeirão Preto , v. 16, n. 3, p. 118-135, set. 2020 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-69762020000300013&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 03 dez. 2021. http://dx.doi.org/10.11606/issn.1806-6976.smad.2020.165262.

- Kristeller J, Cornil Y, Bellisle F, Vinoy S (2020) Mindful Eating Applied to Snacking: A Promising Behavioral Approach Supported by Research. Summary of the Symposium Held at the 21st International Congress of Nutrition (IUNS 2017). J Hum Nutr Food Sci 8(1): 1131.

*Organização e autoria: Rafael Marques Soares, coordenador da Especialização em Comportamento Alimentar da Faculdade iPGS.